Duas Filas para um Salário

22/01/2026 em Crônica

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Duas Filas para um Salário

No dia 22 de janeiro começava o pagamento, mas ninguém chegava ao SAB acreditando que bastava aparecer. Antes de qualquer dinheiro, havia a primeira fila: a fila para apontar o nome na lista. Ainda era cedo, e já se alinhavam corpos cansados, olhos atentos, mãos apertando documentos como quem segura a própria identidade. Aquela primeira espera era decisiva: sem o nome escrito, não havia salário, não havia explicação, não havia mês.

O SAB acordava lentamente, mas a fila já estava desperta há horas. O chão frio recebia passos inseguros. Alguns chegavam em silêncio absoluto, outros murmuravam cumprimentos tímidos, como se falar alto pudesse apagar nomes. Cada pessoa avançava com o coração preso na garganta, esperando ouvir o som seco da caneta riscando o papel. Só depois disso vinha a segunda fila — a da chamada — mas todos sabiam que o verdadeiro medo morava na primeira.

Ali estavam professores de todas as categorias. As do jardim seguravam as pastas como quem protege algo frágil; nelas, o cansaço vinha acompanhado de uma doçura triste. Os do ensino básico faziam contas mentais enquanto esperavam, repetindo números como orações. Os do liceu mantinham-se direitos, sustentados por uma dignidade aprendida à força. Os dos cursos técnicos tinham mãos que sabiam fazer, construir, reparar, agora imóveis, dependentes de um nome numa lista. Os universitários carregavam livros fechados, inúteis diante do papel que decidia tudo. O pessoal técnico andava de um lado para o outro, inquieto, perdido em regras confusas, tentando não demonstrar o medo. Todos juntos, misturados, nivelados pela mesma fragilidade.

Mas a fila não pertencia apenas ao presente. Ela puxava para trás, com força. Fazia reviver os primeiros momentos da construção, quando tudo era promessa e poeira, quando os financeiros eram patrões — não apenas do dinheiro, mas das vidas. Decidiam quem avançava, quem ficava para trás, quem comia, quem esperava. A fila parecia provar que essa lógica nunca morreu. Apenas trocou de roupa, de discurso, de nome.

O medo espalhava-se devagar, entranhado, como sombra que aprende o formato do corpo. Medo do passado, porque o passado já tinha traído. Medo do dinheiro faltar antes do mês acabar. Medo quase infantil, vergonhoso, de ouvir o próprio nome não ser chamado. Havia também o medo do n’guli dinheiro, essa serpente invisível que engole salários entre carimbos e assinaturas. Medo de sair do SAB com dinheiro no bolso e olhos nas costas. Medo de ser roubado, de perder tudo num instante. E a humilhação — essa não precisava de palavras: explicar, justificar, baixar a cabeça, sentir-se pequeno.

Alguém murmurou, quase chorando, a pergunta que todos carregavam por dentro: por que a fila?
Onde estavam os diretores? Onde os inspetores? Onde os que decidem sem nunca esperar? Nenhum deles ali para sentir o peso das horas, a vergonha silenciosa, a dignidade sendo testada. Nenhum deles ali para lembrar que salário não é favor.

Quando a primeira fila enfim avançou, não houve alívio completo. Restava a segunda espera: a chamada do nome. O sol subiu, mas não aqueceu ninguém. A fila andava aos soluços, como um corpo cansado. Um suspiro profundo, uma lágrima rápida, um riso nervoso. Quando os nomes começaram a ser chamados, não houve festa. Houve apenas um alívio curto, quase triste.

Receber o salário naquele 22 de janeiro não era vitória. Era apenas continuar vivo dentro do mês. E, no SAB, enquanto as duas filas se desfaziam lentamente, ficava uma dor difícil de nomear: a sensação de que o tempo não passou como devia. A construção terminou, os edifícios cresceram, os discursos mudaram — mas a fila continuava ali, mandando, respirando, como um patrão antigo que nunca saiu.

Djimidura di cidadon

Letrado Ianga 

Por CNEWS

22/01/2026