Mediocridade como método: o retrato da classe política guineense

10/03/2026 em Opinião

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Mediocridade como método:  o retrato da classe política guineense

Não é exagero dizer que falta estruturação e resistência mental à maior parte da classe política guineense. Falta preparo, falta densidade, falta estatura para lidar com assuntos de Estado. O que abunda são atitudes levianas, ausência de cultura de sigilo e segurança, e uma compulsão por ocupar espaço, não por servir, mas por temer o vazio da oposição.

Assinam acordos hoje e rompem amanhã, não por divergência programática, mas por cálculo imediato. Filiam-se a princípios de conveniência, não a princípios doutrinários. Mudam de posição como quem troca de roupa, sem prestar contas, sem coerência, sem pudor. A política converte-se em gesto vazio: faz-se só para fazer, preenche-se agenda, distribui-se cargos, encena-se governabilidade.

Esse desapego à responsabilidade nasce também do medo de viver um único dia fora do poder. A oposição não é vista como parte natural da democracia, mas como exílio. Daí a pressa em colar-se a qualquer arranjo, ainda que contraditório, desde que garanta sala com ar-condicionado e escolta na porta. O sigilo vira fofoca; a segurança, imprudência; o interesse nacional, detalhe decorativo.

O resultado é uma rotina de distrações fáceis e de compromissos frágeis. Sem quadros preparados, sem formação contínua, sem disciplina partidária real, as instituições são tratadas como extensões pessoais. E quando a mediocridade vira método, a consequência não é apenas a má governação: é o descrédito duradouro, a descrença cívica, o cinismo que se instala e paralisa.

Romper esse ciclo exige mais que troca de nomes: exige estruturas, escolas de governo, critérios de mérito, transparência nas decisões, limites explícitos a conflitos de interesse. Exige líderes que tolerem a oposição como parte da vida pública e que prefiram perder com coerência a ganhar por conveniência. Enquanto isso não acontecer, continuaremos a assistir ao mesmo guião vazio, escrito por mãos medíocres.

Por: Mamandin Indjai – Professor / Jornalista / Administrativista / Diplomado em Educação para Paz e Cidadania

Por CNEWS

10/03/2026