Larifou: "Não devemos assistir ao Mali afundar"

29/04/2026 em Internacional

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Larifou: "Não devemos assistir ao Mali afundar"

O advogado e presidente fundador do Instituto de Direito Internacional Africano e da Boa Governança, Saïd Larifou, apelou a uma intervenção urgente em defesa da estabilidade do Mali. Em tribuna intitulada “a urgência de um sobressalto africano”, o jurista defende que a crise maliana não pode ser tratada como um problema isolado.

“Há nações cujo destino ultrapassa as suas fronteiras. O Mali pertence a essa categoria rara de nações cuja estabilidade, dignidade e futuro dizem respeito a toda a África”, escreveu o advogado esta quarta-feira, 29 de abril. Para Larifou, “não devemos assistir ao Mali afundar. O silêncio seria uma falta, a indiferença seria uma demissão e a inação seria um erro histórico”.

O presidente do instituto recorda que o Mali “não é um país comum na memória africana”. Foi berço de poder político, comércio e saber, e “o nome do Mali ressoa ainda como o da unidade, da visão e da grandeza”. Bamako, destaca, permanece na consciência universal como capital do saber, da espiritualidade e do encontro das civilizações.

“Quando o Mali vacila, é uma parte da alma africana que treme”, afirma.

Além do peso histórico, Larifou sublinha o papel estratégico atual do país. Situado no coração do Sahel e da África Ocidental, o Mali liga espaços, povos, economias e seguranças regionais. Por isso, alerta que a instabilidade maliana produz “ondas de choque” para toda a região: circulação de armas, expansão de grupos violentos, deslocamentos de populações, fragilização de Estados vizinhos, desaceleração econômica e perda de confiança da juventude nas instituições.

“Nenhum país da sub-região pode prosperar de forma duradoura num ambiente saheliano em crise prolongada”, lê-se.

Na tribuna, o advogado dirige apelos a vários atores. Às autoridades do Mali, pede que meçam “a gravidade do momento e a nobreza da responsabilidade”.

“Governar na tempestade exige coragem, lucidez, escuta e sentido de história. A força sozinha não constrói a paz duradoura”, escreve.

Às forças políticas, líderes religiosos, autoridades tradicionais, sociedade civil, mulheres, juventude e diáspora, apela para que privilegiem “o interesse superior da nação em detrimento das disputas secundárias”. Ao povo maliano, pede que mantenha a confiança na “própria capacidade de reerguimento”.

Larifou dirige-se à CEDEAO, pedindo que o bloco retome a vocação histórica de “prevenir ruturas duradouras, acompanhar as transições e defender a estabilidade regional com inteligência política”. Defende que é preciso conjugar “firmeza com diálogo”. À África, exige que assuma o seu lugar no dossiê e “fale com a sua própria voz, segundo os seus interesses e com os seus instrumentos”. Aos parceiros internacionais, solicita uma postura de “respeito, cooperação e humildade”, lembrando que “o Mali não precisa de tutores. Precisa de parceiros sinceros”.

O jurista propõe uma nova etapa fundada em cinco pilares: o diálogo nacional inclusivo e credível; proteção prioritária das populações civis; restauração progressiva do Estado de Direito; calendário institucional claro e aceite; e reconciliação nacional baseada em verdade e justiça.

“O Mali não deve ser nem humilhado, nem abandonado, nem isolado”, frisou, destacando que “salvar o Mali é proteger o equilíbrio do Sahel, defender a África Ocidental, honrar a história africana e preparar o futuro do continente. A hora já não é de posturas. A hora é de um sobressalto africano.”

Por CNEWS

29/04/2026