Cacine:  Fronteira étnica desmente a fronteira política

24/05/2026 em Crônica

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Cacine:  Fronteira étnica desmente a fronteira política

Cacine vive. E vive justamente porque ignora o mapa que Bissau desenhou para ela. No setor mais ao sul da Guiné-Bissau, Balanta, Fula, Mandinga e Beafada dividem o mesmo chão, falam soso no mercado e circulam entre “dois Guinés” como se a fronteira fosse um detalhe burocrático. É a dualidade que Bissau chama de problema e Conacri ignora: a realidade real da África Ocidental. O abandono de Cacine não é um acidente. É o resultado direto de insistir em governar um território onde as fronteiras étnicas nunca existiram como linhas no chão.

O erro original está em confundir mapa político com mapa humano. Na África pré-colonial não havia muros. Havia zonas de transição. De Dakar a Mali você passava de Wolof para Serer, de Pulaar para Mandinka em 200 km sem perceber quando uma “nação” acabou e outra começou. A colonização francesa e portuguesa cortou essas zonas com régua. Mandinka ficaram em 5 países. Balanta ficaram entre Guiné-Bissau e Guiné-Conacri. Fula se espalharam por 15 Estados. O Estado pós-colonial herdou essa mentira e tentou forçar a realidade a caber no papel. Resultado: Cacine  (Tombali), no sul vira “periferia”. Periferia de quê? De um centro que não entende a língua, a lógica de parentesco e a história de quem vive lá.

Cacine prova que a solução já existe na prática. O que acontece lá é o que sempre funcionou na África Ocidental: multilinguismo pragmático para comerciar, autoridade flexível de chefias tradicionais e conselhos de anciãos para resolver conflitos, e economia transfronteiriça que não respeita alfândega. Isso não é caos. É governança adaptada à realidade etnolinguística Mande e Atlântica que define a região. Enquanto Bissau insiste em impor uma lógica centralizada, Cacine segue funcionando através das redes que a história construiu.

As soluções estão na própria história, não na fantasia de Estado-nação europeu. Primeiro, descentralização real com base etnolinguística. Criar autarquias com poder orçamentário e legislativo em Cacine, Tombali e Quinara, reconhecendo Balanta, Beafada e Mandinga como bases de governo local. O Império de Kaabu funcionou assim por 300 anos: autoridade central para defesa e moeda, autonomia local para terra, justiça e cultura. Segundo, política transfronteiriça formal. Parar de fingir que a fronteira com Guiné-Conacri existe para o povo e criar zonas econômicas e culturais transfronteiriças para Balanta e Mandinga dos dois lados. Terceiro, educação e administração em línguas locais. Ninguém constrói Estado em crioulo e português quando 80% da população de Cacine pensa em balanta, mandinga e soso. O Mali pré-colonial administrava em bambara e songhai. Funcionou.

O discurso de “unidade nacional” usado para justificar o abandono de Cacine é hipocrisia. Unidade não se impõe apagando a diversidade. Ela se constrói reconhecendo que a Guiné-Bissau é um mosaico de zonas Mande e Atlânticas que nunca pediram para ser costuradas numa camisa de força herdada de Lisboa. Enquanto Bissau insistir em governar Cacine como se fosse Bissau, Cacine vai continuar a olhar para Conacri. Não por traição. Por sobrevivência e por lógica histórica.

A  fronteira étnica na África Ocidental nunca foi visível. A fronteira política é que é artificial. A pergunta não é “como integrar Cacine ao Estado”. A pergunta é “como reformar o Estado para que ele caiba na realidade de Cacine”. Se não fizermos isso, o abandono não vai acabar. Só vai mudar de nome.

Por: Mamandin Indjai, Professor, Jornalista, Administrativista, Diplomado em Educação para a Paz e Cidadania

Por CNEWS

24/05/2026