Analfabetismo mediático: a nova urgência da Guiné-Bissau

14/06/2026 em Editorial

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Analfabetismo mediático: a nova urgência da Guiné-Bissau

A Guiné-Bissau conectou-se. Mas esqueceu de educar. Hoje quase toda tabanca tem WhatsApp, todo jovem está no TikTok, todo grupo de família vira corrente de boatos em minutos. Tratamos isso como “coisa de telemóvel”. É ingenuidade perigosa.

Ler um texto, ver uma imagem, assistir um vídeo não é compreender. Criança de 10 anos lê o meme que diz “vacina mata” e acredita. Adulto com curso superior repassa áudio que promete cura milagrosa para cólera. Vemos, ouvimos, clicamos. Mas não analisamos.

A isso se dá um nome: analfabetismo mediático. E ele é mais perigoso que o analfabetismo clássico. O primeiro impede de assinar um contrato. O segundo faz votar no pior candidato, rejeitar uma vacina, destruir a reputação de alguém por um boato. O país forma leitores, mas não forma cidadãos críticos.

A arma já está na mão de todos, mas não ensinamos a mirar. O currículo escolar guineense ainda age como se estivéssemos em 1990. Ensinamos gramática, mas não ensinamos a identificar quem escreveu a notícia. Ensinamos história, mas não ensinamos a checar a data e a fonte de uma imagem que circula no WhatsApp.

O resultado está nas redes: golpes do “prémio internacional”, desinformação eleitoral, discurso de ódio étnico, fake news sobre saúde pública. E a resposta do Estado é silêncio ou proibir internet em dia de exame. Tapar o sol com a peneira não é política pública.

A frase “todos usam, logo todos sabem usar” é falsa. Usar Facebook não é entender Facebook. Postar vídeo não é verificar vídeo. Milhares de jovens hoje tiram sustento do Instagram e WhatsApp Business, mas aprenderam sozinhos, no susto. Pagam com conta hackeada, dinheiro perdido em golpe, reputação destruída por partilhar mentira sem querer.

Se a economia informal já depende das redes, então literacia mediática virou matéria de sobrevivência. Não é luxo de país rico. É higiene básica num país onde a desinformação se espalha mais rápido que a verdade.

Olho vê, ouvido escuta, mas sem raciocínio crítico o cérebro só reage. O algoritmo não mostra a verdade. Mostra o que dá raiva, medo ou vaidade, porque isso gera clique. Sem literacia mediática, o guineense vira marionete do algoritmo: acredita no que confirma a frustração, partilha o que confirma o ódio. Depois pergunta por que o país não avança.

A solução não pode esperar. Primeiro, literacia mediática precisa entrar no currículo escolar como Português e Matemática. Não como palestra de ONG, mas como disciplina com nota e teste. Ensinar desde cedo: quem é a fonte? qual a data? quem lucra se eu acreditar nisso? como verificar se a imagem é real?

Segundo, formar professores. Não adianta levar para a escola se o professor também repassa corrente no grupo da igreja. Ministério da Educação, rádios comunitárias e universidades precisam treinar formadores.

Terceiro, regulação com responsabilidade. Proibir internet não resolve nada. É preciso cobrar das plataformas a remoção de conteúdo de ódio e fake news sobre saúde, sem censura política. Mas isso só funciona se a população souber exigir.

A Guiné-Bissau não falta recursos. Falta visão. Importamos telemóveis de última geração e exportamos cidadãos de primeira geração digital: clicam em tudo, acreditam em tudo, produzem pouco.

Ou ensinamos o povo a pensar o que vê, ou vamos continuar reféns de uma mentira de 20 segundos que destrói 20 anos de trabalho. A internet chegou. O cérebro precisa chegar também. E isso é urgente.

Direção Executiva 

Por CNEWS

14/06/2026