Crise identitária e falência de valores numa sociedade multiétnica

18/06/2026 em Opinião

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Crise identitária e falência de valores numa sociedade multiétnica

A identidade cultural constitui o eixo de coesão social em sociedades multiétnicas e plurirreligiosas. Em contextos como o da Guiné-Bissau, observa-se um processo acelerado de erosão de valores tradicionais. Embora a literatura aponte a religião como fator de rutura cultural, esta análise defende que o fenómeno é multifatorial. A tese central é que a crise identitária da geração atual resulta da convergência de três vetores: instrumentalização excludente da religião, omissão do Estado no papel de regulador cultural, e colapso da família como agência primária de socialização.

Contrariamente ao postulado doutrinário, as grandes tradições religiosas prescrevem respeito, caridade e humildade como princípios basilares. Todavia, verifica-se na prática social um uso instrumental da fé para justificar intolerância e isolamento. O gesto elementar de cumprimento matinal, expressão de reconhecimento do outro, tornou-se raro. A solidariedade, componente intrínseca à ética religiosa, é condenada sob alegação de incompatibilidade doutrinária. Esse desvio configura menos um problema teológico e mais um problema de compreensão cultural. A religião deixa de funcionar como ponte e passa a operar como muro simbólico.

Historicamente, as manifestações festivas - tabanca, batuque, celebrações religiosas diversas - funcionavam como arenas de integração. Eram espaços onde fula, balanta, mandinga, papel, cristãos, muçulmanos e animistas partilhavam códigos de convivência. Atualmente, observa-se a retração desses espaços. Ocorre um processo de endogamia social: cada grupo recolhe-se a si mesmo, proíbe o que é do outro ou autoexclui-se. Num país multiétnico e plurirreligioso, negar a diversidade não é ato de fé, é negação da própria condição nacional. A diferença, que antes era valor, converte-se em ameaça percebida.

A família tradicional desempenhava a função de gestora de valores: reverência aos mais velhos, normas de cortesia, memória coletiva. Dados etnográficos atuais indicam rutura desse mecanismo. Gestos como inclinar a cabeça ao idoso ou ceder lugar desapareceram do repertório comportamental juvenil. A família, pressionada por condições de sobrevivência, migrou de uma lógica educativa para uma lógica de urgência. Sem modelagem e sem transmissão intergeracional, a criança desenvolve-se sem bússola moral e sem referências culturais estáveis, condição definidora de uma identidade frágil.

Do ponto de vista político, a erosão cultural revela a ausência de um projeto de nação consistente. O Estado omite-se em três frentes críticas: proteção e promoção da cultura, regulação de discursos de ódio e intolerância, e investimento em educação para a cidadania. O vazio institucional é preenchido por extremismos, tribalismo e violência simbólica. Quando o referencial cultural e moral se dissipa, qualquer discurso assertivo, mesmo que excludente, assume a função de guia para a juventude desorientada.

Não se propõe aqui um retorno nostálgico ao passado. Propõe-se o reconhecimento científico de um presente problemático: a formação de uma geração órfã. Órfã de respeito, de memória e de nação. A hipótese que se sustenta é que a identidade não se perde por acaso. Ela é apagada por omissão do Estado, por abdicação da família e por deturpação da religião.

O desafio que se coloca às ciências sociais e aos decisores políticos é direto: como reverter a substituição do cumprimento pela indiferença e da festa pelo muro? A resposta exige políticas públicas de valorização cultural, regulação ética do discurso religioso e requalificação da família como núcleo educativo. Sem isso, a sociedade multiétnica corre o risco de deixar de ser plural para tornar-se apenas fragmentada.

Por: Mamandin Indjai, Professor, Jornalista, Administrativista, Diplomado em Educação para a Paz e Cidadania 

Por CNEWS

18/06/2026