Dauda Cassamá: “Mortalidade materna exige vontade política”

21/07/2026 em Saúde

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Dauda Cassamá: “Mortalidade materna exige vontade política”

A distância entre as comunidades e as unidades básicas de saúde, a falta de formação contínua para técnicos e a fragilidade do sistema sanitário continuam a ser os principais entraves ao acesso à saúde na Guiné-Bissau. A avaliação é do enfermeiro Dauda Ansu Cassamá, mestre em enfermagem pela Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, Brasil, em entrevista exclusiva ao Jornal Capital News nesta terça-feira, 21 de julho.

Para Cassamá, o problema central não é técnico, mas político.

"Na minha opinião, o que tem faltado há muito tempo é vontade política e valorização da saúde, sobretudo daqueles que vivem no interior do país. Se o governo não criar condições em todo o território, equipar centros de saúde com técnicos qualificados e equipamentos à altura de resolver problemas de saúde, não vamos avançar", disse.

O enfermeiro citou dados da UNIOGBIS de 2018 que apontam distâncias superiores a 10 km entre centros de saúde e comunidades no interior do país. Na região de Quinará, segundo ele, essa distância é ainda maior.

"Falta também educação permanente para os técnicos de saúde. Falo de reciclagem. Muitos, depois da formação curricular, não recebem formações, sobretudo em emergência hospitalar. Isso tem levado à falta de confiança entre técnicos de saúde e comunidade, obrigando a população a recorrer à medicina tradicional", descreveu.

Cassamá destacou que a instabilidade política afeta diretamente a execução de políticas públicas. Citou o Plano Nacional de Desenvolvimento Sanitário e o Plano Terra Ranka como exemplos de documentos que não foram implementados de forma cabal devido às mudanças de governo.

Sobre a saída de profissionais do país, defendeu "a valorização dos profissionais de saúde com salários dignos, capacitação contínua e promoções por meritocracia".

A Guiné-Bissau continua entre os países com as taxas mais altas do mundo. Para o especialista, a cadeia de cuidados falha em todas as etapas.

"Não existe segredo sobre o estado de saúde da gestante. Ela deve saber tudo o que está acontecendo com ela. No pós-parto, a mãe deve ser informada sobre como foi o parto, os medicamentos usados e os cuidados com o bebê. A medida urgente é fazer campanhas de educação para a saúde em todo o território nacional, a cada semestre, sobre gestação e pós-parto", defendeu.

Cassamá lembrou que a meta até 2030 é reduzir a mortalidade infantil para pelo menos 25 por cada 1.000 nascidos vivos. Atualmente, o país registra mais de 50 por 1.000 nascidos vivos.

O mestre em enfermagem apontou três medidas que considera urgentes para atenuar a crise no setor: a profissionalização dos Agentes Comunitários de Saúde, que segundo ele passa pela capacitação com materiais didáticos e uso desses agentes para campanhas de sensibilização, educação e prevenção nas tabancas; a formação contínua dos técnicos com foco em cuidados de emergência e doenças prevalentes na infância; e o equipamento dos centros de saúde para garantir materiais e aparelhos a tempo, além da criação de brigadas de primeiros socorros em parceria com o Ministério da Educação em escolas e locais com mais de 20 pessoas.

"Incentivar cursos de primeiros socorros para mães e condutores de transporte público e privado", sugeriu.

Cassamá alertou que muitos pacientes transferidos acabam morrendo no trajeto devido à má condição das ambulâncias e à falta de equipamentos no interior.

"Não só a comunidade deve procurar os centros de saúde, mas também os centros devem sempre procurar as comunidades", ressaltou.

Ao falar sobre malária, Cassamá apontou a mobilização comunitária como caminho viável. Citou o exemplo da China, na província de Hubei, onde campanhas de sensibilização durante 20 anos contribuíram para reduzir drasticamente os casos. Mencionou também Cabo Verde, certificado pela OMS em 2024 como país livre de paludismo, graças, segundo o primeiro-ministro cabo-verdiano, à mobilização de toda a população.

"No tempo da COVID-19, vimos que, quando toda a comunidade participa da prevenção, promoção e educação para a saúde, os resultados aparecem. Esse é o caminho mais viável para acabar com o paludismo", disse.

Para equilibrar assistência e formação, Cassamá defende investimento sério na qualidade do ensino e no incentivo à pesquisa com impacto na prática.

"As parcerias estão entrando, o problema é a sustentabilidade. O investimento dos parceiros é temporário e depois o governo não consegue colmatar a tempo as lacunas deixadas. Isso tem enfraquecido vários esforços feitos até aqui", apontou.

Por CNEWS

21/07/2026