EDITORIAL: Democracia sem povo, palco sem projeto

04/08/2026 em Editorial

Compartilhe:
EDITORIAL: Democracia sem povo, palco sem projeto

Um silêncio ensurdecedor que desce dos gabinetes dos partidos políticos e dos chamados "animais políticos" que só aparecem em ano eleitoral. É o silêncio de quem tem mandato mas não tem voz para defender o povo. De quem tem estrutura partidária mas não tem coragem de dizer ao país para onde quer levar a Guiné-Bissau.

Fazer política deixou de ser ato de coragem, de lealdade ao povo e de coerência entre discurso e prática. Transformou-se em vaidade. Em cálculo de viabilidade pessoal. Em disputa por lugares, não por soluções.

Onde estão os partidos quando o povo enfrenta falta de água, escolas sem professores, hospitais sem medicamentos e jovens sem futuro? Onde estão os políticos quando as instituições são atropeladas e a Constituição vira papel?

Estão calados. Ou pior: estão ocupados a medir quem grita mais alto nas redes, quem aparece mais na televisão, quem consegue mais um cargo.

Política sem obras, sem iniciativa, sem público como destinatário final, não é política. É encenação. É benevolência de fachada que trata o cidadão como figurante e o poder constituinte como moeda de troca.

A mídia não pode continuar a emprestar microfone e câmara a quem usa o espaço público como circo. Palco político não é para palhaços. É para quem tem projeto. Para quem apresenta programa, não promessa. Para quem mostra serviço, não só sorriso para foto.

Dar visibilidade sem critério é compactuar com a inversão de valores. É ajudar a normalizar o vazio. O jornalismo tem o dever de filtrar: menos vaidade, mais viabilidade com público. Menos discurso oco, mais compromisso com o povo.

A Guiné-Bissau não precisa de mais políticos profissionais. Precisa de políticos responsáveis. Precisa de partidos que falem mesmo quando é impopular falar. Que defendam o povo mesmo quando não há câmara ligada.

Enquanto o silêncio continuar a reinar nos corredores dos partidos, o barulho da rua vai aumentar. E quando o povo se cansa de esperar, a democracia paga a conta.

O poder é do povo. E quem quiser ocupá-lo, que venha com projeto, com coragem e com respeito. O resto é vaidade. E vaidade não governa ninguém.

Direção Executiva

Por CNEWS

04/08/2026