CRÓNICA FINDAYAN

23/01/2025 em Opinião

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CRÓNICA FINDAYAN

Cacheu, cidade ribeirinha, vestida de mangal e florestas, que no pôr-do-sol, apaixona os que nela passavam. A considerada zona reservada, um ambiente que herdou a negra página duma das empresas mais criminosas que o mundo já conheceu, a escravatura. Nessa histórica cidade, vive uma pobre menina chamada Findayan. Uma singular criatura, de altura girafa, olhos castanhos e pele preta que se podia comparar ao brilho das lindas águas do Rio Cacheu. Era bonito ver-lhe sorrir. O rosto que consolava os que com ela conviviam. Mesmo assim, não deixa de ter obstáculos.

Da família camponesa, com dez irmãos e duas madrastas, Findayan conhece o real significado da grande família africana.

Ciente da situação de dor e miséria que atravessa a sua morança, numa manhã, ela, tendo concluído o ensino liceal, enfrentou o pai dizendo:

-Baba*! Pretendo inscrever-se na Unidade de Ensino Domingos Mendonça.

 O pai com a cara dos primeiros navegadores que desembarcaram no porto de Cacheu. Mexeu os lábios, coçou a barba, e com gestos de querer abandonar o espaço, de voz vulcânico respondeu:

-Nʹbida*! Na próxima semana o seu esposo chega. O seu beden* se realiza daqui há um mês, e, nunca mais fala da escola.

Naquela altura, o céu timbrou-se de preto pela menina. Ela, nem conseguia sentir a presença de casas. Apenas o que ouvia, era o cantar dos pássaros que musiqueavam e cobriam os céus.

Mesmo assim, Findayan, na manhã do dia um de agosto, pelas oito horas, já estava no portão da unidade do ensino. Uma escola da construção moderna, em forma da letra T, que assiste as sessões fotográficas dos seus visitantes.

- quero se inscrever! Sacudindo a cabeça a cabeça de esquerda e direita.

Ela teve uma receção paciente, amável e que apenas pediu-se os documentos que constavam no anúncio, bilhete de identidade e certificado. Após isso, a menina percorreu o espaço tendo um convite e o ambiente que podia mudar o seu rumo.

Chegando em casa, claro que comentou o assunto, e que teve como resposta a corte do precioso almoço feito de caldo branco. Seus dias conheceram o gargantear dos lobos, por não ter onde dormir. Mesmo assim, ela, no período diurno, assistia as explicações de Matemática e da Língua Portuguesa. Terminado o processo, no dia vinte seis do mesmo mês, realizou-se o teste de admissão, com a promessa, como calendarizado, de publicar os resultados no dia cinco de setembro.

 Para ela, esta data parecia se comparar a um semestre e que sempre passava na Unidade para se inteirar do evoluir dos trabalhos e, se de facto a data seria uma realidade.

No dia cinco, como prometido, as seis e meia de madrugada, a candidata já estava no corrimão perto da vitrina. Passando horas, sua impaciência foi ganhando a altura de baloba grande, vizinha da escola. Contudo, dava para notar as movimentações administrativas. Nos serviços, viam-se pessoas sérias e preocupadas com a questão laboral. Não haviam muitos serviços. Ao entrar, eles eram a Secretaria, o Conselho Pedagógico e a esquerda, a biblioteca, fotocopiadora, o Conselho Disciplinar, Sindicato, Gabinete do Diretor e do Subdiretor, a Administração, Associação Académica e o Conselho Técnico Pedagógico. Neste último serviço, encontravam-se quatro elementos, supervisionados pelos agentes sindicais.

A frente do computador, estava um senhor de tamanho régulo da cor clara e a voz que saia à estéreo. Do outro lado, um senhor que aparentava ser o segundo, lento nas ações e reto nas decisões. Ainda, a outra presença masculina, com charme atento e aspeto Amílcar Cabral que desenhava gráficos e onde se sentia o tique taque do teclar. Uma última, como manda, era a presença feminina, que do jeito carinhoso arrumava os processos.

Quando faltavam dezassete minutos para às dezasseis horas da tarde, o presidente saiu em direção a fotocopiadora e, minutos depois, a Findayan ficou como a segunda classificada, com uma nota final de 17,5 valores. Talvez seja por passar noites vendo as estrelas ou, o medo de ser levada pelos malvados lobos que lhe impediam travar o piscar dos olhos. 

Como diz o provérbio africano, "quem quer pode", os dias letivos voaram. Ela terminou o primeiro ano, passando noites numa casa abandonada. O seu abrigo alimentício era o porto de Cacheu, onde frequentavam mulheres "padidas dus mamas" e pescadores que, quando ajudava nos trabalhos, lhes pagavam uns dois ou quatro peixes.

Alimentou-se de bagres que apenas se sentia o perfume marca bagre nela. Certo dia, uma senhora de nome Nheta, confidenciou o responsável da Unidade onde ela estudava sobre a situação e, numa reunião do Conselho Diretivo, decidiu-se isentá-la de todas as comissões existentes na instituição.

Ainda, foi associada a uma das estudantes, e passou a saborear a espuma e aconselhamentos dos travesseiros. Mesmo tendo uma estrela candente, e agora sendo apoiada pelos filhos do bem, ela não para de ouvir os recados e as ameaças de morte da parte do pai. Conheceu dias ruins e mais ruins. Dias que somente se consolavam com a realização de exames onde a média das notas era de dezoito valores. No terceiro ano, ano da prática pedagógica, na Escola Amizade China Guiné-Bissau, a diretora, sendo uma pessoa atenta, vendo nela uma mulher metódica, paciente e que não tardou a conquistar a atenção dos alunos e os funcionários da escola. No seu gabinete murmurou:

-És mininu nkana pirdil*!

Na manhã seguinte, como dizem os guineenses "filanta mas panga udju", além da carta feita, antecipou verbalmente dizendo:

-Essa menina tem um talento singular. Seus fazeres são ímpares. Além do saber viver e estar.

Antes do final da prática pedagógica, a menina já teve a resposta endereçada a Direção da Escola Amizade China Guiné-Bissau. No ano letivo seguinte, através do concurso de provimento de vagas, a sua diretora enviou uma carta aos Serviços dos Recursos Humanos do Ministério da Educação, onde na colocação, foi mantida nessa instituição.

Para tal, comece, sem medo, sem vergonha, sem receios. Aceite que piores dias também fazem parte das nossas vidas, por que como disse o Paulo Freire " o sistema não teme ao pobre que passa fome, teme o pobre que sabe pensar. Não desista do seu sonho, se de facto é um sonho que vai transformar o seu mundo e dos outros. A justificativa não pode ser a questão do gênero, se neste mundo a mulher é quem governa em tudo. Pare e pensa, porque ser homem as vezes é estranho.

O Letrado Ianga, 23 de janeiro de 2025

In Mulher, televisão de todos nós

 Glossários

Baba- pai, (papa) num dos dialetos da Guiné-Bissau, Balanta.

N'bida- filho/a no mesmo dialeto

Beden- casamento

És mininu nkana pirdil- quer dizer, não vou perder essa cria (recursos humanos)

Filanta mas panga udju- prevenir-se de algo, preparar-se

Padidas dus mamas- verdadeiras mães. Aquelas que cuidam e protegem todas as crianças

 

Por CNEWS

23/01/2025