Sofrimento das Mulheres Guineenses — Um Grito Silenciado

08/03/2025 em Crônica

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Sofrimento das Mulheres Guineenses — Um Grito Silenciado

Em muitos lugares do mundo, esta data é celebrada com festivais, manifestações, palestras e discussões sobre o poder e as conquistas das mulheres. Mas, para as mulheres guineenses, esse dia é uma lembrança dolorosa das cicatrizes ainda não curadas. Um dia que ecoa como um grito abafado, ressoando entre as vielas ou seja ruas de uma sociedade onde elas continuam a sofrer as piores atrocidades: marginalização, abuso, violência física, insultos, queimaduras e a constante sombra de uma cultura patriarcal que as submete à invisibilidade.

Na Guiné-Bissau, o sofrimento das mulheres não é uma exceção; é a regra. Muitas delas, desde pequenas, são educadas para aceitar o silêncio como resposta ao abuso. Elas são ensinadas, na prática e nas palavras, que o seu lugar é atrás, nas sombras, enquanto os homens ocupam o palco iluminado da sociedade. Em casa, no trabalho, na escola, elas são constantemente lembradas de que sua voz não tem valor, de que seu corpo não lhes pertence, e de que seu destino está atrelado a um roteiro escrito por outros.

A violência física é a face mais cruel dessa opressão. Casos de agressões brutais são comuns, e os relatos de mulheres queimadas — uma forma de punição bárbara e medieval — tornam-se cada vez mais frequentes. A "carbonização", como é chamada, é uma prática onde mulheres acusadas de transgredir normas sociais ou familiares são queimadas, muitas vezes até a morte, em uma tentativa de silenciá-las. O que resta após essas queimaduras não são apenas feridas visíveis, mas também feridas profundas na alma de quem sobrevive.

Mas a violência não se resume ao físico. A violência emocional e psicológica é igualmente devastadora. Todos os dias, milhares de mulheres guineenses são vítimas de insultos e humilhações, forçadas a suportar um cotidiano de opressão silenciosa. Elas são desvalorizadas e constantemente lembradas de que não têm um lugar nas grandes decisões da sociedade, da política e até mesmo de sua própria casa. A luta pela sobrevivência vai além de garantir o sustento; ela se torna uma luta diária pela dignidade e pelo direito de ser reconhecida como um ser humano com direitos próprios.

E, no entanto, apesar de todas as adversidades, elas resistem. As mulheres guineenses, mesmo nas condições mais difíceis, continuam a lutar — muitas vezes sem que o mundo perceba. Elas são as que mantêm as casas, que criam filhos, que enfrentam os desafios da vida com uma força que poucos compreendem. E, ainda assim, muitas permanecem invisíveis para a sociedade, relegadas a um papel secundário, sem reconhecimento algum por suas imensas contribuições.

Essa falta de reconhecimento é parte de uma cultura patriarcal profundamente entranhada na Guiné-Bissau, onde as mulheres são tratadas como acessórios na vida pública e privada. Desde a infância, são ensinadas a se submeter, a se calar, a ser a esposa e mãe que a sociedade espera, sem jamais questionar os limites impostos a elas. A cultura patriarcal não apenas perpetua a violência, mas também cria um sistema em que as mulheres são despojáda de sua liberdade e autonomia. É uma cultura que limita as possibilidades de vida, de crescimento, de transformação.

A falta de políticas públicas eficazes que protejam as mulheres e promovam sua participação ativa em todas as esferas da sociedade é um dos maiores obstáculos à mudança. Muitas mulheres guineenses não têm acesso à educação de qualidade, saúde adequada ou mesmo à justiça quando são vítimas de abusos. O sistema de segurança e justiça falha em proteger as mulheres e, frequentemente, permite que os agressores permaneçam impunes, reforçando a ideia de que a violência contra a mulher é tolerada e até aceita.

Mas a resistência existe. Em muitos cantos da Guiné-Bissau, mulheres se unem para lutar, para apoiar umas às outras, para buscar formas de romper esse ciclo de violência e invisibilidade. Elas têm se organizado em grupos, criado redes de apoio, e exigido que suas vozes sejam ouvidas. A luta delas, muitas vezes silenciosa, também é uma forma de transformação, de resistência.

Neste 8 de março, o Dia Internacional da Mulher, é impossível não lembrar que, enquanto algumas celebram suas conquistas, outras ainda estão lutando para garantir sua sobrevivência. O que celebramos, de fato, é um grito de urgência: é necessário mais do que palavras de apoio, é preciso ação. O mundo precisa ouvir o grito das mulheres guineenses, que exigem não apenas reconhecimento, mas o direito fundamental de viver sem medo, sem violência, sem humilhação.

A mudança não será fácil, mas ela começa com a conscientização, com a compreensão de que o sofrimento das mulheres guineenses não pode mais ser ignorado. O Dia Internacional da Mulher celebrado neste sábado deve ser um ponto de virada, um momento para que todos, independentemente de gênero, se unam para derrubar as estruturas que perpetuam a violência e a marginalização das mulheres.

A resistência das mulheres guineenses não é apenas uma luta por suas próprias vidas, mas também uma luta pela dignidade e liberdade de todas as mulheres. Em um futuro onde todas possam ser livres, vivas e iguais, a Guiné-Bissau não será mais um lugar onde o sofrimento das mulheres passa despercebido. Que 8 de março de 2025 marque o início de um novo capítulo — um capítulo onde as mulheres guineenses possam finalmente ser reconhecidas, respeitadas e livres de todas as formas de violência e opressão.

Por: Jornalista Nelson Oliveira Intchama

Por CNEWS

08/03/2025