Escalada de agressão física contra membros do governo

25/03/2025 em Opinião

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Escalada de agressão física contra membros do governo

Opinião: A escalada de agressão física contra membros do governo da Guiné-Bissau no Estrangeiro é reflexo da falta de ética política e cultura democrática

Nos últimos dias, a Guiné-Bissau tem sido palco de uma escalada preocupante de agressões físicas contra membros do governo, episódios que ocorreram não apenas no território nacional, mas também no estrangeiro. Esses incidentes são uma manifestação de um problema profundo e estrutural que afeta o país: a falta de ética política e a fragilidade da cultura democrática. A violência, que já deveria ser evitada em qualquer democracia madura, tem se tornado uma resposta frequente no cenário político guineense, com repercussões negativas não apenas internamente, mas também no plano internacional.

A Violência como Sintoma de Crises Políticas Não Resolvidas

A Guiné-Bissau é um país com um histórico de instabilidade política. Golpes de estado, crises governamentais e divisões partidárias marcaram os últimos anos da sua história recente. A violência, nesse contexto, tem sido uma constante, mas o que é ainda mais alarmante é a crescente agressão física contra membros do governo no estrangeiro, fora do alcance da jurisdição local. Estes episódios não são meras exceções, mas revelam uma situação em que a disputa política não se resolve mais por meio do debate, mas pela força.

A violência política não é novidade na Guiné-Bissau, mas a escalada dessa violência, que agora atinge membros do governo em solo estrangeiro, é um sinal claro de que a política do país está distante de ser construída sobre os princípios democráticos de respeito à divergência de ideias e à convivência pacífica. Quando disputas políticas se transformam em agressões físicas, a democracia está sendo corroída, e isso coloca em risco a própria estabilidade do país.

A Falta de Ética na Política Guineense

A ética política é um princípio fundamental para o funcionamento de qualquer democracia. Ela implica respeito pelas normas legais, pelo processo eleitoral, pela oposição política e pela liberdade de expressão. No entanto, a Guiné-Bissau parece estar imersa em uma crise de ética política, onde o desrespeito pelas instituições e pelos valores democráticos tem prevalecido.

Quando membros do governo são agredidos fisicamente, seja por outros políticos ou por manifestantes, isso demonstra uma quebra completa das normas de convivência civilizada. O comportamento agressivo, especialmente de pessoas que deveriam ser exemplos de liderança, reflete a total falta de responsabilidade e compromisso com o bem-estar da população. Quando a política se torna um campo de batalha onde a força física se sobrepõe ao diálogo e à negociação, o país está, efetivamente, se afastando de uma prática democrática saudável.

A impunidade, que muitas vezes acompanha esses atos de violência, apenas reforça a sensação de que o poder é algo que pode ser conquistado e mantido não por meios legítimos, mas pela intimidação e pela violência. Isso agrava ainda mais a situação, pois cria um ciclo vicioso em que os políticos se veem acima da lei, e a sociedade acaba aceitando esse comportamento como parte do jogo político.

A Fragilidade da Cultura Democrática

A cultura democrática vai muito além da realização de eleições livres e regulares; ela exige o respeito pelo Estado de direito, a proteção dos direitos humanos e a capacidade de resolver divergências sem recorrer à violência. No entanto, na Guiné-Bissau, a cultura democrática está longe de ser uma realidade consolidada. A política do país é marcada por divisões acentuadas, em que a busca pelo poder muitas vezes se sobrepõe ao interesse coletivo e à convivência pacífica.

A agressão física contra membros do governo no estrangeiro revela a fragilidade dessa cultura democrática. Ao invés de adotar o diálogo como ferramenta de resolução de conflitos, muitos líderes e cidadãos parecem ver na violência a única forma de pressionar ou intimidar seus adversários. Esse tipo de mentalidade autoritária, que recusa o debate construtivo, mina a confiança da população nas instituições democráticas e prejudica a capacidade do país de avançar em direção à estabilidade e ao progresso.

O Impacto Internacional da Violência Política

Além dos danos internos, a escalada de agressões físicas contra membros do governo da Guiné-Bissau tem repercussões significativas no plano internacional. Em um contexto global em que as questões de direitos humanos e de governança democrática são cada vez mais valorizadas, a violência política gera uma imagem negativa do país. A comunidade internacional, incluindo organismos financeiros e governos estrangeiros, observa atentamente as ações de um país e sua capacidade de manter a paz e o respeito pelos direitos de seus cidadãos.

Quando líderes políticos guineenses se tornam alvo de agressões físicas fora do país, isso envia um sinal de fraqueza institucional e de incapacidade de manter a ordem. Isso pode prejudicar a credibilidade da Guiné-Bissau em termos de cooperação internacional, afastar potenciais investidores e dificultar a atração de apoio de organismos internacionais que poderiam contribuir para o desenvolvimento do país.

Caminhos para a Mudança: Fortalecimento das Instituições Democráticas

A Guiné-Bissau precisa urgentemente de uma mudança na forma como a política é conduzida. Para que a democracia no país se fortaleça, é necessário que as instituições políticas e judiciais funcionem de maneira mais eficaz, imparcial e transparente. A violência precisa ser repudiada como meio de resolução de conflitos, e a cultura do diálogo deve ser promovida. Para isso, é fundamental que líderes políticos e a sociedade em geral adotem uma postura de respeito pelas normas democráticas, pelos direitos humanos e pela convivência pacífica.

Além disso, é necessário que haja uma responsabilização mais rigorosa para aqueles que praticam atos de violência, independentemente de sua posição política. A impunidade deve ser combatida, e os responsáveis por agressões físicas contra membros do governo e outros cidadãos precisam ser punidos de acordo com a lei, de forma a garantir que os princípios democráticos sejam preservados.

Conclusão

A escalada de agressões físicas contra membros do governo da Guiné-Bissau, especialmente no estrangeiro, é um reflexo claro da falta de ética e da fragilidade da cultura democrática no país. Esses incidentes não devem ser vistos apenas como episódios isolados, mas como sintomas de uma crise mais profunda que afeta a governança e a confiança nas instituições. Para que a Guiné-Bissau possa avançar, é essencial que seus líderes e cidadãos se comprometam com a construção de uma democracia verdadeira, pautada no respeito, na ética e no diálogo. Somente assim será possível romper o ciclo de violência e construir um futuro mais estável, próspero e respeitado, tanto internamente quanto internacionalmente.

Por: Jornalista, ativista e discente Nelson Oliveira Intchama

Por CNEWS

25/03/2025