Opinião: Entre a Tradição e a Modernidade

28/03/2025 em Opinião

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Opinião: Entre a Tradição e a Modernidade

Uma Reflexão Crítica sobre a Avaliação das aprendizagens na Guiné-Bissau: Entre a Tradição e a Modernidade

A avaliação no processo de ensino e aprendizagem na Guiné-Bissau tem sido tradicionalmente centrada em métodos rígidos e quantitativos, como exames e provas finais, que não refletem a complexidade do aprendizado dos alunos. Embora esse modelo esteja profundamente enraizado no sistema educacional, ele tem gerado uma série de críticas por sua abordagem limitada e sua incapacidade de acompanhar as mudanças rápidas que ocorrem no contexto global da educação. A avaliação, portanto, não deve ser vista apenas como um instrumento de verificação de conhecimento, mas também como uma ferramenta de desenvolvimento e diagnóstico do processo educativo.

A Avaliação Tradicional: Uma Prática Desconectada da Realidade

Na Guiné-Bissau, a avaliação tem sido largamente dominada por provas escritas e testes padronizados. Esta abordagem, herdada de sistemas educacionais coloniais, está longe de considerar as diferentes realidades e contextos dos estudantes. A grande maioria das escolas enfrenta dificuldades estruturais, como a falta de materiais pedagógicos adequados, de uma infraestrutura de qualidade e até mesmo de acesso a recursos tecnológicos. Este cenário, aliado a uma formação inicial inadequada dos professores, tem contribuído para um modelo de avaliação que é pouco eficaz em medir o real desenvolvimento dos alunos.

Além disso, o método tradicional de avaliação, focado na memorização e na repetição de conteúdos, não leva em conta as diversas formas de inteligência e os diferentes estilos de aprendizagem dos estudantes. Isso significa que muitos alunos, especialmente os que possuem dificuldades de aprendizagem ou que não têm o português como língua materna, acabam sendo avaliados de maneira injusta e desproporcional. A avaliação, nesse sentido, passa a ser um fator de exclusão em vez de um instrumento inclusivo que potencialize o aprendizado.

A Falta de Uma Avaliação Formativa e Diagnóstica

Um dos grandes problemas da avaliação na Guiné-Bissau é a escassez de práticas avaliativas formativas, que são essenciais para o acompanhamento do progresso contínuo do aluno. A avaliação formativa, que pode incluir observações, feedbacks contínuos, projetos em grupo e atividades práticas, não é suficientemente valorizada ou implementada no cotidiano das escolas. O foco excessivo nas avaliações finais, que muitas vezes não representam o verdadeiro aprendizado dos alunos, contribui para um ambiente educacional competitivo e punitivo, onde os estudantes se preocupam mais com as notas do que com o desenvolvimento de habilidades e competências.

Além disso, a falta de uma avaliação diagnóstica adequada impede que os professores identifiquem as dificuldades dos alunos no início do processo de aprendizagem. Isso é especialmente problemático, pois impede uma intervenção eficaz para remediar lacunas no conhecimento ou dificuldades de aprendizagem, deixando muitos estudantes para trás, sem a devida orientação para o seu progresso.

A Necessidade de Relevância Cultural na Avaliação

Outro aspecto crítico da avaliação na Guiné-Bissau é sua falta de relevância cultural. A diversidade linguística e cultural do país é um dos seus maiores patrimónios, mas também um grande desafio para o sistema educacional. O fato de a língua oficial de ensino ser o português, enquanto muitos estudantes falam línguas nativas como o crioulo, o balanta, o fula, o manjaco, o pepel e entre outras, gera um descompasso entre o que é ensinado nas escolas e a realidade linguística e cultural dos alunos.

As avaliações tradicionais, centradas na língua portuguesa, acabam por prejudicar os estudantes que não dominam essa língua, resultando em uma desigualdade de oportunidades. Nesse sentido, seria fundamental que o sistema de avaliação fosse mais inclusivo, levando em consideração as diversas línguas e culturas do país, para garantir que todos os alunos possam ser avaliados de forma justa e precisa.

Uma Avaliação para o Século XXI: Caminhos Possíveis

Para que a avaliação na Guiné-Bissau se torne um verdadeiro instrumento de ensino e aprendizagem, é necessário repensá-la de maneira mais ampla e inclusiva. Em primeiro lugar, deve-se buscar uma transição de um modelo de avaliação puramente sumativo (que se concentra nos resultados finais) para um modelo mais formativo, que acompanhe o progresso do aluno ao longo do ano letivo e promova o desenvolvimento contínuo.

Além disso, a avaliação deve ser mais flexível e diversificada, incorporando métodos alternativos que considerem as diferentes competências dos alunos, como avaliações orais, trabalhos em grupo, projetos e atividades práticas. Esses métodos seriam mais adequados à realidade dos estudantes e ao contexto educacional da Guiné-Bissau, onde as condições estruturais dificultam a aplicação de provas tradicionais.

A integração de uma avaliação que respeite as línguas locais e as culturas de cada região também é fundamental. A Guiné-Bissau possui um patrimônio cultural vasto, que pode ser explorado na avaliação como uma forma de conectar o ensino à realidade vivida pelos alunos. Isso poderia incluir a utilização de línguas locais nas avaliações, a valorização de conhecimentos tradicionais e a promoção de práticas pedagógicas que reconheçam e respeitem a diversidade cultural.

Portanto, a avaliação educacional na Guiné-Bissau, como em muitas outras realidades, precisa passar por uma transformação profunda. A crítica ao modelo tradicional, centrado em provas escritas e no conhecimento formal, é uma necessidade urgente. Para que a educação seja mais inclusiva e eficaz, é fundamental que a avaliação seja repensada de forma a contemplar as realidades linguísticas, culturais e sociais dos alunos, além de adotar métodos mais diversificados e formativos. A avaliação, nesse sentido, não deve ser apenas uma ferramenta para medir resultados, mas sim um meio de entender e apoiar o processo de aprendizagem, promovendo o desenvolvimento integral dos estudantes e a construção de uma educação mais justa e equitativa.

Bissau, 20 de Março de 2025

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