Crónica: O País Escapa entre os Dedos

28/03/2025 em Crônica

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Crónica: O País Escapa entre os Dedos

É um ciclo sem fim de decepções. cada dia que passa, o peso do sofrimento parece aumentar.

Um país que se erguera com o sonho da liberdade, da independência, da unidade, está agora a desmoronar-se diante dos nossos olhos. Mas, mais doloroso do que o colapso das suas instituições, é o desvanecer da esperança.

Este país, que deveria ser um farol de desenvolvimento e de justiça, está a escapar de forma subtil. Não é uma queda visível, não é um estrondo, mas sim um processo gradual, uma erosão silenciosa que vai diluindo, dia após dia, aquilo que deveria ser o pilar da nossa nação.

O que aconteceu? Como chegámos aqui?

À medida que olhamos para os nossos supostos governantes e para os nossos irmãos e irmãs, para as nossas ruas e as nossas casas, parece que a resposta se torna cada vez mais óbvia. Não é um simples erro de percurso, não é um acidente isolado.

A verdade é que, desde a nossa luta heróica pela independência, os ideais que nos uniram parecem ter sido deixados para trás, em algum lugar no tempo.

A promessa de um futuro melhor, de um país próspero e justo, vai-se afastando enquanto as assimetrias de desgovernação se multiplicam à vista de todos.

Estamos a afundar-nos. Todos nós, a bordo deste navio que se chama Guiné-Bissau, estamos a testemunhar a sua lenta deriva para o abismo. Mas a verdade é que é impossível ignorar o sentimento de impotência que invade os corações.

Como podemos permitir que o nosso país, o país por que tantos lutaram e morreram, chegue a este ponto? Como podemos deixar que a pátria gloriosa que imaginámos torne-se um espelho de desespero?

No entanto, não podemos render-nos à ideia de que é tarde demais. Não devemos.

O espírito da nossa luta, aquele espírito que inspirou tantas gerações a erguerem-se contra a opressão, ainda vive dentro de nós. Não podemos permitir que o sofrimento e a frustração nos consumam.

Este país, que nasce da luta e da perseverança, não merece a fatalidade da inação.

Ainda temos a possibilidade de nos recompor, de nos unirmos e lutar por um futuro melhor.

Não podemos abandonar a esperança de que podemos corrigir o rumo. É possível.

Podemos fazer mais. Devemos fazer mais.

É hora de mobilização. É hora de renascer, de transformar o sofrimento em força.

Ainda há tempo, ainda estamos a tempo de restaurar a dignidade e o orgulho desta nação. A mudança começa dentro de cada um de nós.

O nosso hino nacional, como um grito de resistência e esperança, deve ser mais do que uma melodia que cantamos em momentos solenes. Deve ser uma chama que nos inspire a não desistir. "Sol suor verde e o mar, dar flor das nossas mãos, esta é a nossa pátria amada, viva pátria gloriosa." Cada palavra deste hino carrega o peso de uma luta histórica, uma luta que ainda deve continuar. "Florir nos céus, a bandeira da luta!" — é este o nosso destino, é esse o nosso chamado.

A luta não terminou (Luta ka kaba!). Não devemos permitir que o país se afaste dos princípios que nos tornaram livres.

Está nas nossas mãos, na nossa força coletiva, na nossa união, a responsabilidade de restaurar a glória da nossa pátria.

Que o espírito da nossa independência nos conduza, que o sangue derramado pelos nossos combatentes continue a pulsar nos nossos corações e nos dê a coragem necessária para transformar a Guiné-Bissau numa nação de prosperidade, justiça e verdadeira liberdade.

A luta continua!

Viva a nossa pátria!

Viva a luta!

Djibril Iero Mandjam

Por CNEWS

28/03/2025